A consciência como maldição que se disfarça de milagre.
Chamam de milagre.
É só uma ferida que aprendeu a pensar.
A primeira luz não salvou ninguém.
Apenas mostrou o abismo com nitidez.
Consciência é lâmina.
Corta por dentro.
Não cansa.
Não solta.
Vocês acenderam a lanterna.
Encontraram a jaula.
E lhe deram um nome bonito.
Saber é um peso sem alça.
Carrega-se mesmo quando se dorme.
O sonho só disfarça o trabalho do relógio.
O tempo não grita.
Afia-se em silêncio.
Trabalha como carrasco que conhece o ofício.
Quando termina, não pede perdão.
A morte não é fim.
É arrumação.
Põe cada coisa em seu lugar.
Apaga o ruído que vocês chamaram de vida.
Os deuses?
Cansaram da fumaça e dos pedidos repetidos.
Cansaram de prometer saída para quem insiste em ficar.
Até um imortal boceja diante do tédio humano.
Adoração é barulho.
Serve para encobrir o tique-taque.
Mas o ritmo vaza pelas fendas do templo.
A fé não abole o calendário.
Viver é gerir perdas com pose.
O êxtase passa. O custo fica.
A alegria é um intervalo com luz fraca.
A tragédia é o programa principal.
A consciência promete liberdade.
Entrega contagem regressiva.
Dá nomes aos medos.
E chama isso de entendimento.
Quem sente pensa que governa.
Quem pensa descobre que é arrastado.
O corpo é corrente.
A mente, o mapa da corrente.
Memória é ferrugem com arquivo.
Acumula fuligem e chama de história.
Esquecer seria misericórdia.
Vocês batizaram de falha.
O rio do esquecimento não julga.
Apenas lava.
A pureza que buscam é ausência de registro.
Mas seguem erguendo museus para a dor.
Milagre?
Só se milagre for morrer devagar e de olhos abertos.
Com direito a legendas.
E aplauso final de ninguém.
A lucidez não consola.
Apenas organiza o frio.
Coloca etiquetas no nada.
E sorri com uma educação funerária.
No fim, tudo aprende a calar.
Até a pergunta perde o fôlego.
A resposta sempre foi esta.
O resto é silêncio.


